VOLÚPIA
Ao deitar o olhar sobre os desenhos de Florian Raiss, fiquei a pensar sobre sexualidade e imaginar que o fim de muitos de nós será como o destino dos sábios gregos e romanos que povoam o primeiro dos sete círculos do inferno, descrito por Dante, em A Divina Comédia. Parece que iremos vagar por esse mundo ao tornar-nos seres de desejos sexuais insaciáveis. Os sábios foram condenados a arderem em desejo, sem esperança de saciá-lo, em tenebroso abismo. Seres vagantes que perambulam por aquelas encostas íngremes, gemendo e suspirando intermináveis ais. Com o castigo deles muito me identifico.
Será este também o nosso destino? Ou será que faremos companhia para Francesca da Rimini, outra personagem dantesca que vagueia mais abaixo desse primeiro ciclo do inferno da Divina Comédia, onde encontram-se as almas luxuriosas em maior sofrimento ainda que a dos filósofos e poetas da Antigüidade, em meio a uma interminável tormenta?
Segundo o poeta latino, o temor ao castigo com tantos pensamentos “pecaminosos” no sentido cristão de culpa, transformaram-se em mais desejo... Ai que triste destino de todos nós que temos o sexo e o desejo permeando nossas atividades e pensamentos! Arderemos de desejo “nas ilusões do amor, nos desejos loucos” não saciados, nos “doces suspiros que antecedem as paixões”?
Ao deparar-me então com os desenhos de Florian Raiss, a primeira impressão diante daquele “diário íntimo sensual” – pois é assim que vejo o ato de desenhar, um gesto muito pessoal e sensível, e a mais direta e sincera das linguagens plásticas, foi a de que estava diante de um arquivo “infernal”, pleno de erotismo. Me senti um pouco como a jovem Francesca da Rimini quando descobriu junto ao cunhado nas leituras das narrativas dos cavaleiros da Távola Redonda, o desejo e o amor nas histórias de Lancelote do Lago e da rainha Guenievra. Sem saber lidar com aquelas inquietações do corpo que afloram durante a leitura, acabou sendo condenada por sua ingenuidade ao entregar-se aos prazeres da carne fora do matrimônio com o cunhado.
Perguntei ao artista, maliciosamente, se ele pensava em sexo, erotismo e desejo a todo instante. Tive uma resposta não tão afirmativa como desejava. Como todo ser humano ele também pensava muito nessa “vertigem do corpo”, e aqueles desenhos significavam à sua maneira, a forma de canalizar sua sensualidade.
Os homens retratados nesse imaginário contemporâneo construído com história e mitologia de uma época áurea, em que os corpos não estão apenas a serviço da sobrevivência, mas servem sobretudo como fonte de prazeres sexuais, portanto são sempre belos e surgem nos desenhos do artista com força bruta e beleza perfeita. Eles poderiam ser inscritos em uma tradição clássica das figuras de perfis angulosos e semblantes serenos. Seres que carregam um pouco de selvageria nas ações, no físico musculoso e algo do que consideramos como parte da delicadeza feminina nos pequenos gestos de cheirar ou oferecer uma flor. São seres identificados por Aristóteles como andróginos originais [2], metade homem metade mulher.
Outros seres híbridos surgem em alguns de seus desenhos como a imagem andrógina delicada e enigmática do homem-sereia ou o centauro, homem-aninal másculo que une uma força brutal que nos seduz pela violência dos seus gestos, fruto de uma relação voluptuosa entre Pasífae que se disfarçou de vaca para que o touro, a luxúria, a saciasse. São esses alguns dos personagens marcantes que povoam os desenhos cheios de substâncias do passado. A sensualidade vista nos trabalhos é tema e parte do processo artístico na obra de Florian Raiss. O artista estudou nas Academias de Belas-Artes da cidade do México, de Florença e Roma o que torna compreensível esse olhar acadêmico na arte de desenhar.
A dramaticidade clássica transmitida nesses desenhos de traço contínuo e firme, de homens de semblante doce e único, como naquelas imagens que estamos acostumados a ver nos museus e livros de história antiga, tem fundamento na obra do artista. Vem de sua formação, portanto, as suas qualidades plásticas fundadas no academicismo consciente das sessões de desenho de observação com modelo nu. Quase um virtuosismo proposital.
Volto-me, então, para aquelas centenas de “pequenos buracos de fechadura” que estavam abertos para mim e continuei a minha deliciosa viagem voyerista por um mundo mitológico um pouco como o descrito na poesia de Konstantinos Kaváfis.
Os poemas do poeta greco-egípcio têm o mesmo poder visto nos desenhos, de nos levar em meio aos prazeres inebriantes das estórias narradas, para uma viagem imprecisa ora em seu próprio tempo ora à antiguidade, transformando-as em uma única história cheia de fantasias para a contemporaneidade desses ambientes masculinos em que os homens, diferentemente das mulheres que pouco aparecem em ambos os casos, são retratados como se estivessem consumindo prazeres carnais, na terra. Sem no entanto resvalarem para a vulgaridade ou caírem no erotismo explícito e sexista, por exemplo, da obra gráfica de um Picasso. A sensualidade do universo homoerótico que permeia os desenhos é preservado com dignidade.
Arte e desejo como manifestações naturais e espontâneas caminham juntas e sempre interessaram como forma de expressão das liberdades individuais e sociais humanas.
Os desenhos vistos desta perspectiva poderiam ser considerados como mediadores entre desejos [3]. O do artista, por um lado, que acaba expondo mesmo que não intencionalmente a sua sexualidade e eroticidade por meio da linguagem plástica, manifestando poder e ambigüidade sensual, e o do público receptor, que espera ser seduzido por esses desenhos fantasiosos que lhes provocam “estranhas” sensações.